PENSÃO SUISSA GUARDA A MEMÓRIA DA HUMANIDADE DE FERREIRA DE CASTRO

Eva Lima guarda a memória de um Ferreira de Castro “humanista, sempre generoso e modesto”. A proprietária da Pensão Suissa era menina e moça quando o escritor de Ossela (Oliveira de Azeméis) ia passar as suas “férias de Maio” a Macieira de Cambra, no município de Vale de Cambra.
O autor de “A Selva” gostava especialmente da quietude daquelas paragens e de peregrinar, pelo que chamava “O Caminho do Céu” às caminhadas até à freguesia de Rôge.
“Ninguém diria que aquele homem era uma personagem tão ilustre”, realçou. Porém, tinha “a noção de que ele seria uma pessoa importante”, sem que – jovem de 17/18 anos – lhe apreendesse, já, a importância literária.
“O Castro”, como se refere ao escritor, também “não incentivava” o culto da sua notoriedade. Antes era alguém que “gostava de passar horas a olhar para o céu e a meditar” e que conversava muito com ela: “Contou-me as peripécias da sua volta ao mundo”, salientou.
Claro que ele também trabalhava nesses tempos de férias: “Fechava-se no quarto a escrever”. Vincou que foi ele a rotular Cambra de “a Suíça portuguesa”, pois “antigamente nevava na serra”.

Amado na Suissa
Mas, a dimensão literária de Ferreira de Castro entraria pela “porta-a-dentro” da Pensão Suissa. Jorge Amado esteve em Macieira de Cambra em 1973. Lembra-se bem do “simpático brasileiro”, que, tal como o escritor osselense, caldeava a fama e o génio literário com a simplicidade do seu humanismo.
“Esteve cá durante dois dias e também era muito simples”, assinalou Eva Lima a respeito do escritor brasileiro. Contou que, tendo-lhe sido dito que “era uma honra para a Pensão Suissa receber tão ilustre escritor”, Amado não se achou assim tão ilustre: “Devem estar enganados”.
E, referiu que Ferreira de Castro levou o seu amigo a Oliveira de Azeméis – “até tiraram uma foto em La Salette, que tenho cá em casa” – e a Ossela, à casa onde nasceu. Pela noite, “a alta sociedade” da região ia visitar o ilustre visitante brasileiro.
Note-se que Ferreira de Castro era visitado “por muitas pessoas”. E, como testemunhou a dona da pensão, embora não tendo criado relações próximas com muitos macieirenses, ainda assim frequentava a casa de uns vizinhos, com os quais estreitou laços.
A terminar, a amiga de Ferreira de Castro escolheu recordar um momento particularmente doloroso – a manhã em que foi acometido pela trombose que lhe roubaria a vida. Acompanhou-o ao Hospital da Lapa, no Porto, e guardou as suas derradeiras palavras: “Como é triste a pobre condição humana! Mas eu creio na ciência e na sabedoria do Homem”.

Diário de Aveiro


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